Por Daniel Chaves
A aritmética do primeiro turno deixou pouco espaço para certezas. Pelos números do TSE, Flávio Bolsonaro (PL) obteve 47,03% dos votos válidos e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 45,16%, uma distância de 1,87 ponto percentual, ou cerca de 2,2 milhões de votos, que o segundo turno, neste domingo, 25, haverá de confirmar ou reverter. O Congresso que acompanhará o vencedor já está desenhado: o PL terá a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, à frente das federações PT-PCdoB-PV, com 88, e União-PP, com 87; no Senado, o partido deverá reunir 28 das 81 cadeiras a partir de 2027. Qualquer que seja o desfecho, a agenda dos próximos quatro anos dependerá de coalizões, e o eleitor já sinalizou por onde ela deve começar: em pesquisa de opinião entre 13 e 14 de outubro, 20% apontaram espontaneamente a violência como o principal problema do país, à frente da saúde (18%) e da economia (15%).
Desafios Econômicos à Vista
A economia, outro grave problema, como dissemos, chega às urnas com desemprego de 5,3%, o menor para o trimestre encerrado em agosto desde 2012, mas com as contas públicas sob tensão. Segundo o Banco Central, a dívida bruta do governo geral alcançou 82,9% do PIB em agosto. Em doze meses, o setor público consolidado registrou déficit primário de 0,62% do PIB, enquanto os juros nominais somaram R$ 1,18 trilhão, 8,86% do PIB; o déficit nominal, de 9,48%, é, portanto, sobretudo conta de juros. As projeções divergem na intensidade, não na direção. A Instituição Fiscal Independente, do Senado, estima a dívida em 86,4% do PIB em 2027 e calcula em 2,1% do PIB o superávit primário necessário para estabilizá-la; no cenário principal do anexo de riscos fiscais do projeto de orçamento de 2027, ela se aproxima de 90% entre 2029 e 2030. E a política monetária segue apertada: a Selic, reduzida a 13,75% em setembro, convive com uma inflação de 4,58% em doze meses, de novo acima do teto da meta.
Problemas de Segurança nos Focos das Discussões
A dívida bruta, que tocou o piso de 51,5% do PIB em dezembro de 2013, saltou ao pico de 87,6% em dezembro de 2020, sob o choque da pandemia, e não voltou a se aproximar daquele piso; nesse percurso, o país trocou o teto de gastos, de 2016, pelo arcabouço fiscal, de 2023. Na segurança, a média engana. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025, taxa de 19,1 por 100 mil habitantes, a menor desde o início da série, em 2012. Mas os feminicídios subiram 4%, e o Amapá, mesmo com redução de 5,9% nas mortes violentas, manteve a maior taxa do país, 42,5 por 100 mil, mais que o dobro da nacional. O Legislativo respondeu em duas velocidades.
A Lei Antifacção, sancionada em março, fixou penas de 20 a 40 anos para lideranças de facções. Já a PEC da Segurança Pública, aprovada pela Câmara também em março, concluiu sua passagem pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado em 14 de outubro, mas teve a votação adiada para depois do segundo turno, em meio ao impasse sobre a maioridade penal. Emenda do líder da oposição, Rogério Marinho (PL-RN), apoiada por Flávio Bolsonaro, propõe reduzi-la para 16 anos e admitir a responsabilização a partir dos 14 em crimes graves; Lula declarou-se favorável à redução para 16 anos nos crimes hediondos, mas fora da PEC. A Constituição de 1988 confiou aos estados o grosso do policiamento, e só em 2018 a Lei 13.675 instituiu o Sistema Único de Segurança Pública, que a PEC pretende agora inscrever no texto constitucional.
Desenvolvimento Humano e seus Desafios
No desenvolvimento humano, o avanço convive com algum descompasso. O Radar IDHM 2026, divulgado pelo PNUD em maio, situou o país em 0,805 em 2024, pela primeira vez no patamar de desenvolvimento humano muito alto. Ajustado pela desigualdade, contudo, o índice cai a 0,641, e o próprio PNUD registra que um homem negro no Amapá tem expectativa de vida de 73 anos, oito a menos que um homem branco no Rio Grande do Sul. Cabe a ressalva de que o IDHM, calculado com a PNAD Contínua, não se confunde com o IDH global, no qual o Brasil figurava em 84º lugar no relatório de 2025. O Ideb de 2025 melhorou em todas as etapas, mas só os anos iniciais alcançaram a meta, e o ensino médio, com 4,5, não a atinge desde 2013. No Índice Global de Inovação, da Organização Mundial da Propriedade Intelectual, o país caiu para o 53º lugar entre 139 economias, terceiro recuo seguido.
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Nenhuma dessas contas foi aberta no último mandato, e nenhuma se fechará no próximo. E há um relógio que nenhuma urna acerta: o IBGE projeta que a população brasileira deixará de crescer em 2040, aproximadamente, ao atingir 220,4 milhões de habitantes. Os desafios dos próximos anos, por isso, se entrelaçam.
Mantidas as regras atuais, a IFI projetou, em junho, dívida de 102% do PIB em 2032, e evitar esse cenário exige percorrer quase três pontos percentuais do produto entre o déficit corrente e o superávit de 2,1% que estabilizaria a dívida. Os caminhos para isso divergem: para uns, o ajuste passa por conter despesas que, segundo a própria IFI, crescem acima das receitas; para outros, sem a queda dos juros, que respondem por mais de nove décimos do déficit nominal, nenhum esforço primário fecha a conta. Assim, nosso primeiro desafio é fiscal. Já o segundo é institucional: a PEC da Segurança exige 49 votos em dois turnos e, se escorregar para 2027, será apreciada por um Senado em que o PL terá mais de um terço das cadeiras; e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta a falta de mecanismos eficazes de controle do uso da força estatal.
Só existe superação do atraso com três possibilidades positivas para além do intrínseco pré-requisito do crescimento econômico: ter boa demografia, acesso a crédito e incorporação reiterada de conhecimento tecnológico. O terceiro problema, nessa análise, é o nosso desafio de converter escola em produtividade e pesquisa em inovação, e nisso pesa a perda de posições do país no pilar de instituições do índice da OMPI, do 82º para o 107º lugar entre 2020 e 2025, embora a base científica figure entre os seus pontos fortes.
Nossa contagem regressiva para a virada demográfica, para um mundo mais quente e com clima volátil, para a concretização da revolução tecnológica em curso e para, afinal, finalmente sermos o país do futuro, já começou. 2026 é mais um dos seus cruciais episódios. A década de 40 do século XXI fica logo ali.
